Via que dá acesso à região do Val de Palmas foi bloqueada/ Malavolta Jr.
Bauru foi tomada por um sentimento de incredulidade ontem, quarta-feira (12). Sem explicação ou aviso prévio, equipes do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) instalaram defensas metálicas na avenida Elias Miguel Maluf, que bloquearam ao menos quatro vias de acesso à região do Parque Val de Palmas, que inclui bairros como o Santa Cândida e Leão 13.
Em meio à medida absurda, os dispositivos foram instalados, inclusive, a centímetros de distância dos portões de três residências que margeiam a pista. Felizmente, os imóveis estavam desocupados e nenhum morador ficou “trancado”.
A intervenção teve início na manhã dessa quarta e, ao longo do dia, provocou grande mobilização, inclusive de alguns vereadores. Indignados, moradores do entorno realizaram um protesto no final da tarde, ateando fogo em pneus, galhos e entulho. A manifestação bloqueou a passagem de veículos nos dois sentidos da Elias Miguel Maluf, que dá acesso à rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294), a Bauru-Marília.
Logo em seguida, a prefeitura determinou a retirada das defensas metálicas, trabalho que foi concluído ainda na noite de ontem quarta (12), enquanto o Corpo de Bombeiros limpava o local para liberar a via.
Por meio de nota, a Secretaria Estadual de Logística e Transportes informou que, ao ter ciência do ocorrido, também impôs ao DER a remoção dos dispositivos para não prejudicar a população, embora entenda que os acessos bloqueados são, de fato, irregulares.
Titular da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), Letícia Kirchner, rebate a informação. Ela explica que o loteamento Parque Val de Palmas existe desde a década de 1950, época em que havia apenas uma avenida no local. A transformação da via em rodovia teria ocorrido na década 1960, como alternativa de acesso à Bauru-Marília.
“Quando a rodovia foi criada, foi firmado um convênio que não previu solução de acesso alternativo para estes lotes. Somente previu que futuros loteamentos deveriam ter acesso independente, por meio de marginais. Portanto, a obstrução do acesso destes lotes que já existiam muito antes da rodovia foi uma medida intempestiva, que fere o direito de ir e vir desta comunidade”, lamenta.
‘INTEMPESTIVA’
Ontem, quarta-feira (12), o prefeito Clodoaldo Gazzetta estava em viagem de trabalho a São Paulo e, durante o retorno a Bauru, revelou que a prefeitura não foi previamente comunicada pelo DER. Fazendo uso do poder de polícia conferido ao Executivo, ele determinou que a Secretaria Municipal de Obras providenciasse a retirada imediata das defensas metálicas.
“A população tem o direito de acesso a seu bairro, suas casas e suas empresas. Esta intervenção do DER foi intempestiva e estamos adotando todas as providências em relação a este assunto”, destaca. Segundo a Secretaria Estadual de Logística e Transportes, o fechamento dos acessos está previsto nas normas do DER para evitar acidentes e atropelamentos.
Porém, para não causar prejuízos à população com medidas drásticas como a adotada nessa quarta (12), o DER foi orientado pela pasta a iniciar tratativas com a Prefeitura de Bauru com o objetivo de regularizar os acessos “com a maior celeridade possível, em concordância com o Manual de Normas Técnicas” do Departamento.
Assim como vereadores e o secretário municipal de Obras, Ricardo Olivatto, o vice-prefeito Toninho Gimenez esteve na avenida Elias Miguel Maluf e garantiu que a administração municipal está aberta ao diálogo, inclusive para discutir a necessidade de execução de obras naquele trecho.
INDIGNAÇÃO
Morador há 18 anos do Santa Cândida, Luciano Assis, 46 anos, defende a construção de uma rotatória ou trevo de acesso no local, assim como os já existentes em outros trechos da avenida, como na altura da Vila Dutra. “O bairro inteiro sai e entra por estes acessos. Os comércios são abastecidos através deles. Um das ruas, inclusive, foi asfaltada pela prefeitura há cerca de um mês. É absurdo tentar resolver um problema desta forma arbitrária”.
Já a balconista Fernanda Vasconi, 38 anos, moradora do bairro há mais de 20 anos, demonstrava preocupação com a possibilidade de as instalações, sem qualquer tipo de sinalização, provocarem acidentes assim que começasse a anoitecer. “A iluminação é precária no período noturno e os moradores não foram avisados de nada. Nunca vi nenhum acidente aqui, mas, com as defensas, com certeza iria ter. Já estava prevendo que iria sair morte”, observa.
Durante a execução do serviço, as equipes do DER informaram que ambos os lados da rodovia de acesso à Bauru-Marília seriam isolados por meio de defensas metálicas. Além de bloquear a fachada de três residências e a passagem de moradores, a intervenção também interditaria uma empresa do ramo de construção civil, inaugurada nas imediações no final do ano passado.
Também seriam prejudicadas aproximadamente 65 famílias que vivem no acampamento Virgínia Rainha, localizado em uma área logo atrás da empresa. Conforme um dos membros do grupo, Sidnei Eleutério da Silva, 44 anos, conhecido como Cowboy, até mesmo o ônibus escolar trafega pelo acesso que seria bloqueado, para transportar as crianças que vivem no local. “Felizmente, conseguimos impedir que isso acontecesse, porque teríamos de levar as crianças até o acostamento. Aí, sim, seria perigoso”, acrescenta.
Proprietário das casas ‘trancadas’ questiona
Felipe Gimenez, 31 anos, proprietário das três residências que tiveram seus portões bloqueados pela instalação das defensas metálicas, questiona a situação e afirma que os imóveis são regulares. “Está tudo certo. As construções têm todas as documentações da prefeitura, o Habite-se e a planta aprovadas”, diz.
Ele comenta que, felizmente, as três casas estão desocupadas. Uma quarta, também de sua propriedade, está alugada, mas possui o portão principal voltado para o outro lado da rua. “Não tinha conhecimento da possibilidade de isso acontecer. Não recebi nenhum tipo de notificação do DER sobre a obra que fariam no local. É uma situação muito chata. Se as casas estivessem ocupadas, como os moradores fariam para entrar e sair dali?”, questiona.
O empresário conta não estava na cidade quando foi surpreendido. “Recebi diversas ligações e pedi ao meu sócio que ajudasse no que fosse preciso. Depois, soube que a prefeitura interveio no local”. JCNET
