Para Ciro Gomes, decisão tomada pelo juiz Marcelo Bretas não se sustenta juridicamente. “Minha consciência de cidadão e minha formação jurídica me obrigam a afirmar que esta prisão viola a Constituição” Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Mesmo sendo há anos um dos críticos mais ferrenhos do MDB, incluindo de Michel Temer, Ciro Gomes se posicionou contra a prisão do ex-presidente. Para o pedetista, a “aberração jurídica” tomada pelo juiz da Lava Jato Marcelo Bretas não se sustenta juridicamente nem deve ser comemorada.
“O Brasil não pode comemorar a violação da lei, mesmo que seja para fazer aquilo que se alega ser justiça. O nome disso é justiçamento”, definiu o ex-ministro em conversa com ÉPOCA, em Madri, onde palestrou na IE Business School, nesta sexta-feira 22. “A Lava Jato perdeu completamente o sentido”, afirmou.
Sobre uma possível candidatura em 2022, Ciro contou que o PDT pediu permissão, mas que teria de pensar “100, 1.000 vezes”, pois dependerá “da condição prática” futura. Até lá, pretende seguir dando palestras em universidades e terminar um livro, que deverá trazer um diagnóstico atual do Brasil e apontar soluções. O lançamento está previsto para este ano e tem a população jovem como público alvo.
A prisão ex-presidente Michel Temer é justificada?
Se tem um brasileiro que acha que o Michel Temer merecia estar condenado e preso, sou eu. Não quero diminuir a militância de ninguém, mas, de fato, eu denuncio. Fui processado por ele e fui condenado, por essa fração estranha do Judiciário brasileiro, a indenizá-lo. Fui processado pelo Eduardo Cunha, que era parceiro e sócio dele.
Estou cansado de saber desde o caso do porto de Santos que Temer é um corrupto sistemático. Virou presidente do PMDB [atual MDB] porque topou o serviço sujo de juntar dinheiro para pagar as contas dos colegas e tirar um pedaço para ele.
Eu poderia estar comemorando essa prisão. Entretanto, minha consciência de cidadão e minha formação jurídica me obrigam a afirmar que esta prisão, feita como foi, viola a Constituição, porque a regra é a liberdade. O Brasil não pode comemorar a violação da lei, mesmo que seja para fazer aquilo que se alega ser justiça. O nome disso é justiçamento. Isso não se sustenta.
Acredita que ele ficará muito tempo preso?
Duvido. O que vai acontecer é que o ministro encarregado da revisão das providências da Lava Jato no Rio de Janeiro é o polêmico ministro Gilmar Mendes. Agora está com um novo pepino produzido pela turma da Lava Jato.
Das duas uma: ou desperta a ira da opinião pública, que considera justa a prisão, e a desfaz, ou abandona a sua fama de bom jurista e sustenta essa aberração jurídica. Armaram para o Gilmar Mendes de uma forma bastante sofrida. Estou rindo para não chorar.
[Nota do editor: é provável que os recursos sejam julgados no STF pelo relator da Lava Jato, ministro Edson Fachin, devido ao fato de a operação que prendeu Michel Temer ter sido um desdobramento da Lava Jato em São Paulo]
A prisão reforça a ideia de que a Lava Jato não é seletiva, como critica o PT?
Isso eu já disse. Fica a “petezada” desfazendo a Lava Jato e esquece que o Eduardo Cunha está preso. O PT botou o Temer, e todos nós sabíamos [dos problemas]. Agora a Lava Jato, a pretexto de fazer a coisa na direção correta, comete erros muito graves.
O Lula foi condenado em duas instâncias, e, ainda que seja estranho em um país com quatro graus de Jurisdição determinar a execução da pena na segunda instância, definitivamente não é o caso do Temer. Ele não foi condenado ainda, como deveria ter sido há 20 anos, em nenhuma instância. É muito constrangedor. A Lava Jato perdeu completamente o sentido.
Quais os impactos para o presidente Jair Bolsonaro?
Superficialmente, ele levou sorte, porque o que estava dominando a mídia era o fiasco vergonhoso da viagem aos Estados Unidos. Na ocasião, Bolsonaro entregou tudo para os americanos, nos campos real e simbólico. Uma vassalagem vergonhosa, apátrida, que nunca vi em 39 anos de vida pública.
Depois, tivemos a notícia da brutal queda de popularidade, sem precedentes na história brasileira. Tudo foi abandonado no calor da notícia da prisão do Temer. Como consequência prática, a prisão prejudicará profundamente o ambiente institucional, em que se deve processar o debate das reformas.
Devem ter ido para o ralo uns 80 votos do MDB e parceiros [às reformas], por cumplicidade. Se o Temer faz uma delação premiada, vai entregar uns 80 a quem ele deu dinheiro. E o confronto direto do absolutamente vaidoso, prepotente e despreparado ministro Sergio Moro com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.
Acredita que as rusgas entre o juiz Sergio Moro com o deputado Rodrigo Maia, que é genro do Moreira Franco, contribuíram para as prisões? Em outras palavras, pode ter sido uma vingança?
Eles têm de demonstrar que não. O despacho interlocutório do juiz Marcelo Bretas tem um dia de antecedência à resposta do Maia [ao Moro]. Portanto, não parece ser uma retaliação direta. Parece ser muito mais uma confrontação com o Supremo Tribunal Federal.
O Deltan Dellagnol [procurador] já está falando mal do STF sem muito pudor ou cuidado. De qualquer forma, o brasileiro médio, como eu, fica apavorado. É a barbárie. Estamos no meio de uma briga de foice no escuro entre as instituições que têm a responsabilidade de dar segurança jurídica para a gente viver. É o esfacelamento da República. E isso porque não temos liderança. O Bolsonaro assiste a tudo, catatônico.
Quais as consequências práticas que desentendimentos como esses trazem ao país? Nos Estados Unidos, o guru do Bolsonaro, Olavo de Carvalho, chamou o vice-presidente General Mourão de “idiota”. Este, por sua vez, afirmou que o Olavo está passando dos limites e que iria processá-lo…
Atrapalha de forma completa a governabilidade. Revela o despreparo do Bolsonaro, a incapacidade absoluta de coordenar seu próprio governo, de manter a orquestra sob regência. Que o Mourão está de olho na cadeira presidencial. Só um pato não vê. De outra forma, o Bolsonaro confraternizar com Olavo nos Estados Unidos, com o [Stephen] Bannon, esses filhos ridículos, patéticos, é um sinal de confusão, de desgoverno.
A queda da aprovação de Bolsonaro pode levar o país a um déjà-vu da era Temer, em que um governo impopular não conseguiu aprovar reformas?
Sem dúvida. O presidencialismo à brasileira traz em si uma lógica de impasse. A Constituição de 1988 foi desenhada para instalar o parlamentarismo. É um regime em que a maioria parlamentar tem a responsabilidade de governar.
Na prática, temos um órgão, que é o Congresso Nacional, que detém o monopólio do desenho institucional do país, mas não tem nenhuma responsabilidade com o resultado na vida do povo. É o Executivo de quem se cobra e de quem se espera tudo. O capital político [do Bolsonaro] tende a se desfazer. E essa lógica de impasse é agravada pela estupidez do presidente.
Algum dos escândalos recentes, como o caso dos laranjas, do Queiroz e sobretudo a morte de Marielle, em que Bolsonaro foi fotografado com um dos acusados, pode prejudicar o presidente?
Quem a Justiça deixar solto, corre o risco de uma pessoa como eu ou ele ter uma foto. A não ser na “escola de Curitiba”, isso não é prova de nada. Temos de ser sérios. Claro que este é um conjunto muito constrangedor de coincidências: a foto, a vizinhança a três casas, o filho [do Bolsonaro] namorar com a filha [de Ronnie Lessa], ele ser um cara que tem dez homicídios… Tudo isso tem de ser investigado.
Como você avalia a qualidade da oposição que tem sido feita ao presidente?
Muito ruim. Porque o que remanesce é uma tentativa amalucada e irresponsável do PT de manter o país num clima de terceiro turno. E nós perdemos a eleição. Temos de ter essa humildade e entender a consequência disso: somos uma minoria.
E o papel dessa minoria é tentar conter os danos que a vitória avassaladora da direita mais retrógrada impôs ao país. E impôs por causa do PT, por causa do lado bandido do PT. O PT finge que o brasileiro não sabe que o Antônio Pallocci, réu confesso, foi ministro da Fazenda. O PT escolheu o Temer para vice. Se associou ontem com o Renan Calheiros. E depois se zangam comigo.
Como está sua interlocução com as lideranças petistas, principalmente Fernando Haddad, seu amigo que concorreu com o senhor nas eleições?
Não sei se ele ainda é meu amigo, mas eu sou amigo dele. É um homem de bem, mas que aceitou jogar um jogo sujo e fraudulento. O coordenador de sua campanha foi o pragmático Sérgio Gabrielli, que não era de sua confiança, e quem presidiu a Petrobras no petrolão. O Lula impôs o coordenador, o assessor de imprensa e o fotógrafo da campanha. O Haddad assumiu um programa que não foi ele quem fez. Mas a mim, repito, é um homem de bem e que não faz parte do lado bandido do PT.
E o Lula, você já o perdoou pela tentativa de inviabilizar sua candidatura?
Não tem perdão nem mágoa. Eu não falei que o PT estava fazendo isso comigo [inviabilizar a candidatura] por mágoa, inveja, coisa nenhuma. Via que estavam fazendo política sem escrúpulos, pura e simples. Isso é política. Não tem essa história de mimimi, queixa ou mágoa. Agora, entendam: eu também estou fazendo política. Eu não aceito mais conviver com o lado bandido do PT.
Quem é o “lado bandido” do PT?
Essa direção atual toda. Impressionante. Cada um com seu escândalo. Humberto Costa (PT-SP) é o homem dos “sanguessugas”. Paulo Pimenta (PT-ES) tem escândalos que o envolvem no Uruguai. São as escolhas que foram feitas. E o Lula tem uma grave responsabilidade. Ele escolheu o Pallocci, Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Dilma, Temer.
Quem é, hoje, o principal nome da oposição ao governo?
Na Câmara, estou gostando muito do Marcelo Freixo (PSOL-RJ), cada dia mais. Quando ele se livrar desse identitarismo radical e desse equívoco estratégico de “puxadinho do PT”, ele é um quadro. Bem intencionado, sério e valente. Se tem alguém ameaçado de morte no Brasil, é ele. E a opção dele é de luta. Admiro gente assim. Ele tem preparo, espírito público e sensibilidade para evoluir.
De que forma o PDT está trabalhando para se fortalecer para as próximas eleições?
Houve um fenômeno de uma juventude universitária votar em massa em mim nas últimas eleições. E ela começou a se identificar na internet, e passamos a transformá-la em uma relação mais física, orgânica. Pretendemos levar parte dessa militância nova a se filiar ao partido e disputar eleições.
E o partido vai se reestruturar em alguns lugares, como Mato Grosso e Amazonas. O presidente do PDT, Carlos Lupi, está cuidando disso, pois tem mais aptidão que eu. E vou terminar um livro neste ano que faz um diagnóstico atual do Brasil, destinado ao jovem, e que propõe caminhos. Seguirei fazendo palestras, as próximas serão em Lisboa e nos Estados Unidos.
Ciro 2022?
É uma ideia lisonjeira. O partido me pediu permissão, mas, evidentemente, vou ter de pensar 100, 1.000 vezes antes de ser candidato mesmo. Sou muito experiente. Vem muita confusão por aí, e essa confusão tem um poder de combustão monstruoso.
Espero que ela possa produzir coisas novas e boas para o país. Não sou reativo, porque eu gostaria de ser presidente do Brasil. Eu gostaria muito. Mas já fui preterido três vezes. Tenho modéstia. E também sei o porquê. Não foi só por causa de minhas debilidades pessoais.
Venho de um estado pequeno, do Nordeste, por boa fé apoiei o governo Lula. Tenho memória e não vou repudia-la. Terminei a eleição como a segunda opção, menor rejeição, com vitória em todas as simulações de segundo turno. É muito estimulante. Mas daí a ser candidato novamente, depende da condição prática que teremos lá na frente. Continuarei estudando, me atualizando e trabalhando. ÉPOCA/G1
