Jorge Venâncio, coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), órgão do Ministério da Saúde que também acompanha os testes de vacinas no Brasil, disse hoje, terça-feira (10) ao Jornal Hoje que o comitê independente ainda não enviou um parecer sobre a morte do voluntário da vacina CoronaVac.
Ao contrário da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que suspendeu temporariamente os testes em humanos da vacina CoronaVac contra a Covid-19, a Conep entende que não há necessidade de suspensão dos testes.
“A causa não tem efeito com a vacina. Esse conjunto dos dados que está sendo colocado demonstra que são duas coisas completamente independentes. Suspender um estudo com o esforço todo que está sendo feito por causa de evento que não tem relação não me parece uma coisa apropriada. Por isso que não decidimos por esse caminho”, disse.
A causa da morte do voluntário da CoronaVac, que teria feito a Anvisa suspender os testes com a vacina, foi suicídio, de acordo com boletim de ocorrência obtido pela TV Globo nesta terça-feira (10) Especialistas da saúde criticaram a fala de Bolsonaro ao comentar a suspensão de testes da CoronaVac.
Em uma rede social, o presidente afirmou que o episódio é “mais uma que Jair Bolsonaro ganha“. O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, disse que politizar o debate sobre vacinas só provoca desinformação.
“Este é um receio que nós estamos, na prática, acabando vivenciando, de que a contaminação política ultrapasse a barreira da ciência, e você vê vacinas sendo colocadas como de um partido ou de outro, de um governador ou de um presidente, questões xenofóbicas, vacinas de um país ou de outro quando, na verdade, a ciência não respeita fronteiras, a ciência não tem preferências políticas nem calendário eleitoral para se prometer datas de entrega”, avaliou Kfouri.
A especialista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, escreveu no Twitter que, em caso de óbitos, o ensaio clínico tem que ser paralisado.
“O evento (morte) parece ter ocorrido em 29 de outubro. Nesse dia, deveria ter sido comunicado à Anvisa, iniciado investigação, e paralisado o ensaio. O ensaio continuou durante a investigação. E, segundo a Anvisa, o comunicado só foi feito 10 dias depois”, escreveu Garrett.
“No pronunciamento do diretor do Butantan, não é suficiente dizer que ‘é um óbito não relacionado à vacina’ e lançar dúvidas quanto à ação da Anvisa. Precisa de mais transparência. Morreu de quê? O óbito estava no grupo da vacina ou do placebo?”, escreveu a especialista.
“Finalmente, erra feio o presidente Jair Bolsonaro ao dizer que ele ganhou com a interrupção dos testes. Nosso interesse deve estar em combater a pandemia e salvar vidas. Ninguém deveria ganhar com isso, muito menos um presidente eleito para zelar pelo bem estar dos seus constituintes”, acrescentou Garrett.
A presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, também criticou a fala de Bolsonaro.
“Atrapalha demais. Atrapalha o andamento da ciência, atrapalha a confiança da população nas vacinas como um todo, e não só nas vacinas para a Covid-19, deixa o país polarizado, dividido e convida as pessoas a politizarem a ciência como se a ciência pudesse ser, também, uma disputa de poder, uma disputa política”, avaliou Pasternak.
“Todas as vacinas que forem testadas e que forem aprovadas como seguras e eficazes são necessárias e são úteis à população. Nós não vamos vacinar a população brasileira com apenas uma vacina. Nós vamos precisar de todas elas, e a CoronaVac é uma vacina tão promissora quanto todas as outras.”
A neurocientista Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19, disse em uma rede social que a suspensão acontece quando algum evento adverso é observado. “Comitês científicos independentes estudarão para dar o aval de prosseguimento ou não. AstraZeneca e Johnson & Johnson já passaram por isso e hoje já estão com os estudos retomados. Não houve relação dos eventos adversos com a vacina.”
Entretanto, a neurocientista enfatizou que a partidarização das vacinas não faz sentido. “Todas elas passam pelo método científico de análise e validação, independente de rótulo/fabricante/de onde veio. A população é quem ganha com as vacinas. Sem elas, todos perdemos.”
O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, explicou hoje, terça-feira (10) que interrompeu os testes da vacina CoronaVac contra a Covid-19 por falta de documentos que explicassem detalhadamente o que havia ocorrido.
“Em sede de dúvidas, paramos. Eu pergunto: que mal há parar para aguardar os documentos que nos enviarão? Por que o motivo de correria? Por que a ansiedade que parece ser maior que a ansiedade que todos nós na Anvisa temos?”, questionou Torres aos jornalistas.
“Documentos completos têm que ser enviados a nós, isso não aconteceu”, disse Torres, afirmando que o único documento enviado foi um formulário padrão sem detalhes. “O que recebemos ontem não nos dava nenhuma outra alternativa [que não fosse a suspensão]”. BEM ESTAR
