Pessoas abaixo dos 60 anos estão morrendo mais por causa da Covid-19 em Bauru. O alerta parte de um levantamento feito pelo JC com dados da Prefeitura Municipal.
As estatísticas mostram que, com o decorrer da pandemia, houve uma crescente na proporção de óbitos envolvendo a população da faixa etária entre 20 e 59 anos. Raras no início, as vítimas fatais não idosas do novo coronavírus já representam 21,5% do total de mortos na cidade.
Entre as situações que chamam a atenção para este cenário, está um boletim epidemiológico divulgado pela prefeitura em 30 de setembro. Na ocasião, três mortes causadas pela Covid-19 foram divulgadas em um mesmo dia e todas elas eram de pessoas abaixo dos 47 anos.
De lá para cá, muitos informes diários têm trazido não idosos entre as vítimas fatais, fato que era raro até o fim de maio. Uma das exceções, porém, foi o boletim desta quinta (15), que trouxe sete óbitos, todos de pessoas acima de 60 anos .
EXPOSIÇÃO
Para o infectologista coordenador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Estadual (HE) de Bauru, Lucas Marques da Costa Alves, o aumento das mortes em não idosos está relacionado à maior exposição desta população.
O público abaixo dos 60 anos é maioria entre os economicamente ativos e, consequentemente, o mais exposto com o retorno de muitas das atividades, a partir de agosto. “Quanto maior o número de casos, maior será a proporção de pacientes graves.
No início da pandemia, circularam informações de que a doença era mais grave em pessoas idosas ou com comorbidades. E muita gente mais nova achou e ainda acha que é só uma ‘gripezinha’ e nem máscara usa. Só que, quanto mais você se expõe ao risco, maior sua chance de morrer”, cita o infectologista.
79% DOS CONFIRMADOS
Dos cerca de 10,5 mil casos confirmados de Covid-19 na cidade, 79% são pessoas entre 20 e 59 anos, o que representa aproximadamente 13,2 mil indivíduos. “Não são poucos os pacientes mais jovens em estado grave. O que ocorre é que pessoas mais novas e sem doenças associadas conseguem, geralmente, reverter o quadro grave mais rapidamente”, detalha o médico.
O infectologista ressalta, contudo, que não há como prever quem terá a forma grave da doença, mas que a comorbidade é o fator que tem contribuído bastante para o resultado morte, independentemente da idade. “Um paciente jovem com hipertensão tem fator de risco, assim como o obeso mórbido, o diabético, o renal crônico e quem fuma muito.
A pessoa evolui com mais gravidade do que outros pacientes que não têm nada”, frisa. Dentre todos os fatores de risco, entre os 20 e 30 anos, a obesidade mórbida é a mais grave, segundo o médico. “São pessoas com mais chances de apresentar a forma mais grave da doença. Mas, temos pacientes obesos mórbidos, com hipertensão e diabetes que tiveram quadro leve”, contrapõe.
DESCOBERTAS
Outra situação comum nos hospitais, segundo ele, é de pessoas não idosas que só descobrem algum tipo de comorbidade quando ficam doentes.
“Já vi jovens entrarem andando e saírem de cadeiras de rodas, com necessidade de hemodiálise ou com uma sequela pulmonar. O problema é que, como se trata de uma doença ainda desconhecida, ninguém sabe o que pode acontecer daqui a seis meses, se será possível reverter o quadro desses pacientes”, finaliza Lucas Alves.
Pessoas saudáveis e que possuem um bom sistema imunológico também podem evoluir para a forma grave da doença. O alerta é feito pelo médico Lucas Alves, que explica que a situação não é tão comum, mas ocorre devido à resposta exacerbada do organismo.
“É quando o sistema imunológico funciona bem, mas acaba produzindo uma resposta aumentada, provocando mais reação inflamatória. O que faz o quadro evoluir para uma piora”, comenta o infectologista.
Médico desde 2004, ele fala com indignação sobre as aglomerações. “Eu olho e automaticamente já penso no aumento de casos. Sabemos que seis meses é muito tempo e que as pessoas estão cansadas da não interação, mas pandemia ainda não acabou”, alerta. JCNET
