A face mais cruel da pandemia volta a assustar o Rio. Com o aumento dos casos da doença, a ocupação dos leitos de UTI na capital está no limite, segundo pesquisadores e especialistas.
Dados da Secretaria municipal de Saúde mostram que ontem, domingo (27), das 251 vagas em unidades da prefeitura para pacientes em estado grave, 219 estavam ocupadas, chegando a uma taxa de 87,2%. Para o epidemiologista Roberto Medronho, professor da UFRJ, o percentual ideal é de até 70%.
A prefeitura informou que tem 630 leitos em enfermarias para pacientes com Covid-19. Desses, 240 estavam ocupados ontem, domingo. Se levar em conta toda a rede do Sistema Único de Saúde (SUS) — que inclui as unidades municipais, estaduais e federais —, o percentual de leitos de UTI ocupados na capital estava ontem em 80%, com 399 internados
Há dois meses, estava em 71%. O índice nas enfermarias neste domingo era de 51%. Em nota, a Secretaria municipal de Saúde informou que realiza “a maioria absoluta dos atendimentos de Covid-19” no Rio, já que houve fechamento de leitos nas outras redes”.
O estado deixou de receber pacientes nos hospitais de campanha do Maracanã e de São Gonçalo e na rede própria. Já as unidades de campanha do Leblon e do Parque dos Atletas, que eram mantidas pela iniciativa privada, também foram desmobilizadas, como estava previsto desde a inauguração.
O único hospital de campanha aberto no Rio é o do Riocentro, da prefeitura. Apesar de ainda haver algumas vagas no sistema, 48 pessoas esperavam uma vaga em leitos de Covid-19 neste domingo na Região Metropolitana.
Média sobe há dez dias
Essa pressão na rede hospitalar também é reflexo do aumento do número de casos, que chegou neste domingo a 102.246 na capital. Já o total de mortos registrado até domingo era de 10.849. Em todo o estado, são 261.860 infectados e 18.278 óbitos.
Para verificar a tendência da doença, o consórcio de veículos de imprensa tem usado a média móvel dos registros dos últimos sete dias. O consórcio é formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S. Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo.
Com esse parâmetro, chega-se a 85 mortes e 1.421 casos por dia no estado. Neste domingo, houve um aumento de 47% na média de óbitos na comparação com as duas semanas anteriores, o que, por estar bem acima dos 15%, indica um cenário de crescimento no contágio da doença.
Foi o décimo dia seguido de alta nas médias de mortes. A última grande sequência de aumento na média de mortes aconteceu entre 20 e 31 de agosto, quando o crescimento variou entre 20% e 89% nessas 12 datas.
Corrida por vagas
Com menos leitos devido ao fechamento de hospitais de campanha e ao crescimento do números de casos, a Defensoria Pública vem recebendo mais pedidos de ação para obter vagas em UTIs. — A gente tinha parado de ter ação judicial pedindo internação em leito de UTI para Covid-19, mas os pedidos de ação estão aumentando paulatinamente.
Estávamos tendo muitas ações pedindo leitos não-Covid, porque eles fecharam os hospitais de campanha e foram jogando essas pessoas com Covid para a rede. E aí faltou leito não-Covid. Agora, a gente não tem leito nem para Covid nem para não-Covid — disse Thaísa Guerreira, coordenadora de Saúde e Tutela Coletiva da Defensoria.
O médico sanitarista da Fiocruz Christovam Barcellos, que apontou que a capital está numa “zona crítica” em relação à oferta e ocupação de leitos para pacientes com coronavírus, culpa o relaxamento, tanto por parte do governo, quanto por parte da sociedade, como os grandes fatores que contribuíram para esse panorama atual.
— Esse aumento na ocupação de leitos para Covid-19 no Rio é consequência de várias coisas que estão acontecendo. As pessoas estão se expondo muito agora, mesmo as que ficaram resguardadas durante meses começaram agora a se expor direta ou indiretamente.
Para ele, há risco de uma nova grande onda da doença e, nesse caso, a estrutura atual poderia acabar não comportando a demanda por leitos. O GLOBO
