Ralf posa com crianças atendidas pelo projeto Renovatio em Vila Rica de Caviana (AM) Foto: Divulgação
Seis anos atrás, o estudante Ralf Toenjes montou com dois colegas um ponto para doação de óculos para pacientes com receita do SUS. Sua base era o Instituto da Visão, no bairro Vila Clementino, na Zona Sul de São Paulo. Foi o primeiro passo da ONG Renovatio, que desde então levou óculos e clínicas móveis para atendimento oftalmológico para 21 estados do país.
Toenjes, que acumula premiações por seu trabalho, ganhou esta sexta-feira uma nova honraria — foi eleito um dos 17 jovens que compõem a turma de 2020 do Programa Jovens Líderes para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Toenjes, hoje com 28 anos, é formado em Administração e Economia pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e em Direito pela USP. Resolveu dedicar-se à saúde visual em 2013, quando um grupo de estudantes alemães lhe disse, em uma viagem ao México, que 680 milhões de pessoas no mundo precisavam de óculos e não tinham condições de adquiri-los.
Os óculos de grau de baixo custo e alta qualidade foram desenvolvidos com tecnologia alemã. Usando apenas recursos privados, Toenjes comprou um ônibus com dois consultórios portáteis. Hoje, seus 40 colaboradores dividem-se em 15 unidades móveis, instaladas até em carretas.
A ONG já fez a triagem de mais 150 mil pessoas em vulnerabilidade social e doou 50 mil óculos. Sua meta é “impactar 1 milhão de vidas até o ano de 2021”. — Chamamos oftalmologistas para nossa equipe, porque não adianta doar óculos sem um médico para fazer prescrição — recorda.
— Setenta e um por cento dos municípios não têm médicos com esta especialidade. Conhecemos muitas pessoas que nunca haviam realizado um exame de vista. A precariedade da saúde visual produz um impacto notável sobre a educação. Segundo a Renovatio, 85% do aprendizado escolar se dá pela visão, e 22,9% da taxa de evasão se dá pela falta de óculos.
— Fomos nas 14 escolas municipais de Jaguariúna (SP) e vimos que 329 alunos precisavam de óculos — conta. — Mas o projeto não se restringe a este público nem a uma região. Um de nossos maiores desafios foi chegar a regiões indígenas no interior do Amazonas, inclusive no território xingu.
Doamos um óculos para uma senhora de 76 anos, que há 12 anos não conseguia costurar devido a problemas de vista. O projeto já foi levado também a países como Moçambique, Haiti e Índia.
Toenjes destaca que, no ano passado, fez dezenas de viagens, visitando nações como Israel e Itália, em busca de tecnologias que modernizem o atendimento à população, como a telemedicina, e que agilizem a triagem do público, separando aquelas que podem passar por uma consulta médica no local e as que estão doentes e precisam ser encaminhadas para um centro de referência.
— Temos a maior geração de jovens da História do país: são 50 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos. É nossa obrigação transformar o modo de produção, o consumo e a organização da sociedade — explica Toenjes, que também criou o negócio social VerBem para atrair investidores interessados na democratização do acesso à saúde oftalmológica.
‘Milhões na fila do SUS’
O empreendedor destaca que o país não pode se dedicar apenas a “discussões etéreas”, como design genético de bebês, enquanto há “milhões de pessoas na fila do SUS”.
— A espera média para um atendimento oftalmológico é de 2,5 anos. Se fosse menor, poderíamos evitar a maioria dos casos de cegueira — destaca. — Precisamos unir capitalismo consciente e terceiro setor para criar soluções inovadoras e tecnologia capaz de acabar com a exclusão social.
Toenjes já integrou a lista Under30 da revista Forbes — que abrange empreendedores de destaque com menos de 30 anos — e a de líderes influenciadores da AACSB, a principal associação certificadora de escolas de negócios no mundo. Foi eleito recentemente membro titular do Conselho de Nacional Juventude (Conjuve), responsável pela cadeira de Saúde.
