O policial militar de Marília (SP) que se envolveu em uma polêmica ao ser ameaçado por uma tenente-coronel da PM após guinchar o carro de uma vereadora ficou em primeiro lugar em curso de Policiamento de Trânsito promovido pela corporação, na capital, e foi homenageado em pé na entrega do troféu.
Em um vídeo que circula nas redes sociais, é possível ver o momento que o sargento Alan Fabrício Ferreira é chamado para receber seu troféu como 1° colocado no Curso de Especialização Profissional Policiamento de Trânsito Urbano. Todos os demais PMs se levantam para aplaudir e ovacionam o policial.
A polêmica começou quando o carro da vereadora Professora Daniela (PL) foi apreendido e guinchado por estar com documentos vencidos e pneus gastos. Na ocasião, a vereadora ligou para a tenente-coronel Márcia Crystal, que entrou em contato com o sargento e ameaçou trocá-lo de função caso não tivesse “bom senso” nas abordagens. Em seguida, o policial foi afastado.
A gravação da conversa viralizou e, em meio à polêmica, a tenente-coronel Márcia Crystal, comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar de Marília, anunciou um pedido de licença de 15 dias. Na última sexta-feira (28), ex-PMs fizeram um protesto em solidariedade ao sargento que apreendeu o carro.
Depois de conversar com a vereadora, a oficial da PM pede para que o PM não guinche o carro porque Daniela é vereadora e ameaça trocá-lo de função por não ter “bom senso”.
Na ligação a que a TV TEM teve acesso, o policial explica que constatou que o carro da vereadora não tinha licenciamento e estava com os pneus gastos, motivo pelo qual decidiu abordar a filha dela, que dirigia o veículo, na Rua Carlos Botelho.
O policial informou, no áudio, que deu a oportunidade para que ela fizesse o pagamento via aplicativo, mas a jovem e o pai, que chegou ao local mais tarde, teriam dito que não tinham condições. Depois de ouvir a história, a tenente-coronel pede para que o policial não ficasse “tumultuando” e diz que ele deveria ter apenas feito a orientação, sem apreender o carro.
“Porque isso daí é falta de bom senso, tá? Ela é vereadora. É, é, a condição, você pode muito bem estar fazendo e orientando, tá? E aí segunda-feira, ela pegaria o documento e não precisa apreender o veículo”, diz a tenente-coronel no áudio.
Em seguida, a comandante ameaça trocar o policial de setor se ele continuar agindo de tal maneira, já que ele teria desobedecido uma ordem superior. “Se for desse jeito é o que eu to falando, você não vai estar mais segunda-feira no trânsito (…) porque essa aqui é uma ordem minha, você vai responder também”, continua a tenente coronel.
A conversa continua por mais alguns segundos e a tenente-coronel repete que o policial de trânsito deveria ter tido bom senso ao analisar a situação, já que a mulher é vereadora. “Olha o que você tá causando, porque politicamente ela é vereadora. Não teve nem uma conversa, o que você está achando que você é?”, questiona no áudio.
O Comando do Policiamento do Interior da região de Bauru (CPI-4), ao qual é subordinado o Batalhão de Marília, informou que o policial que efetuou a apreensão não foi afastado, mas estava matriculado em um curso em São Paulo, agendado para o dia 24 de agosto.
Por causa disso, segundo a PM, ele não iria exercer suas atividades em Marília até a conclusão do curso, prevista para esta sexta-feira (4). Consultada, a PM ainda não confirmou se o sargento voltará às suas funções habituais.
O CPI-4 instaurou um inquérito, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP), para investigar a conduta de uma tenente-coronel e de um policial militar envolvidos em uma polêmica na cidade nesta semana. Na última quarta-feira (2), a vereadora prestou depoimento no Comando da PM, mas o teor da conversa não foi informado.
Pedido de cassação aprovado
A Câmara de Vereadores de Marília aprovou na última segunda-feira (31), por unanimidade, a abertura de uma Comissão Processante (CP) para apurar a conduta da vereadora Professora Daniela. Segundo os vereadores, a comissão irá apurar se a ligação da parlamentar para a oficial representou a prática de tráfico de influência, que pode indicar quebra de decoro parlamentar.
O pedido de CP foi feito por um advogado e a aprovação aconteceu pelo placar de 11 votos favoráveis e nenhum contrário. A própria vereadora, por ser interessada direta, e o presidente da Casa, Marcos Rezende (PSD), não votaram. A Câmara tem 90 dias para ouvir os envolvidos, coletar provas e encerrar o processo.
A votação aconteceu horas depois de a parlamentar prestar esclarecimentos na Câmara, na manhã da segunda-feira, quando alegou que apenas fez a ligação a tenente-coronel para defender a filha, que estava com o carro, e para pedir uma informação sobre a possibilidade de não ter o carro apreendido. G1 Bauru/Marília
