O novo ministro da Justiça, André Mendonça, foi escolhido após uma intensa operação de bastidor dos ministros da chamada ala militar para conter um “duplo desgaste” de escolhas pessoais do presidente Bolsonaro para a Justiça e para a Polícia Federal, após a saída de Sergio Moro.
Nos últimos dois dias, esses assessores do presidente tentaram demovê-lo da indicação de Jorge Oliveira para a Justiça e de Alexandre Ramagem para a Polícia Federal, uma vez que ambos possuem ligações com a família Bolsonaro. Para generais, a indicação de ambos corroboraria as declarações de Moro de que Bolsonaro tirou Valeixo da PF para intervir politicamente no órgão.
Bolsonaro, depois de muita insistência, topou rediscutir o nome de Jorge Oliveira para a Justiça, mas os generais perderam a briga a respeito de Ramagem na Polícia Federal. Na avaliação interna, Ramagem deve ter sua indicação contestada pela oposição no STF, mas André Mendonça, não.
Para o Planalto, Mendonça, que chegou ao governo pela Advocacia-Geral da União, dificilmente teria problemas com sua nomeação na Justiça, se fosse contestada. Mendonça tem excelente relação com o presidente do STF, Dias Toffoli, e bom trânsito com ministros da corte.
Antes de integrar o governo Bolsonaro, fez carreira na AGU, onde teve contato com Toffoli, que chefiou o órgão. Para Mendonça, Toffoli foi um “grande AGU” e “vem fazendo uma gestão republicana” no STF, de olho na harmonia entre os Poderes.
Mendonça diz ter o mesmo “perfil” de Toffoli, de “busca de diálogo”. Mendonça foi ganhando cada vez mais a confiança do presidente em 2019 e é um dos principais cotados para a próxima vaga que for aberta no STF. Em entrevista ao “Em Foco”, na GloboNews, em julho passado, perguntado se já tinha pensado a respeito disso, ele respondeu que não tinha como “almejar isso” pois não havia “nem vaga aberta”.
Formado em direito e teologia, Mendonça diz ser um “defensor intransigente” do estado laico. Na entrevista ao “Em Foco”, na GloboNews, perguntei como ele se encantou pela teologia. O então AGU respondeu que “se encantou pela pessoa de Jesus” e que tem formação religiosa desde novo.
Ele contou também que queria abandonar o direito para fazer teologia, mas o pai pediu a ele que, primeiro, tivesse uma profissão. Por conta do volume de trabalho na pasta, Mendonça, que é pastor evangelico, não estava conseguindo pregar nos últimos tempos. O presidente Bolsonaro já disse querer um ministro “terrivelmente evangélico” para o STF.
Relação com Bolsonaro
O trabalho na AGU chegou a André Mendonça por uma ligação de Jorge Oliveira, ainda na montagem do governo. Era um domingo, e Jorge Oliveira – que assessorava o presidente e ainda não era ministro – disse ao advogado que o presidente queria conhecê-lo.
Mendonça foi ao encontro do presidente e, após exposição inicial, perguntou ao presidente se estava falando demais. Bolsonaro perguntou: “André, você não é do meio militar, né?”Diante da negativa, o presidente continuou: “quando alguém está indo bem, no meio militar, a gente diz que a pessoa esta num bom jóquei”.
Finda a conversa, Mendonça se surpreendeu: o presidente já havia batido o martelo ali mesmo. Disse Bolsonaro para Jorge Oliveira, na presença de Andre Mendonça: “prepara o twitter (publicação da nomeação) do rapaz: você é o novo AGU”.
Desde então, André Mendonça se aproximou cada vez mais do presidente e de seus projetos: o decreto de armas, por exemplo. Também atuou junto ao STF a respeito de policiais na escola, pedindo uma autorização para que sejam realizadas operações policiais dentro de universidades por uma posição “técnica”.
Segundo Mendonça, a iniciativa visava coibir “viés ideológico” de professores em ambientes públicos. À época, em 2019, o ministro negou que a posição da AGU viole liberdades ou estimule a censura. Na visão dele, professores precisam e devem fomentar o debate – inclusive de temas polêmicos –, mas não pode “militar” no espaço público, como universidades. BLOG DA ANDREIA SADI
