O vice Hamilton Mourão tem experimentado um clima de “guerra fria”, segundo aliados relataram a ÉPOCA. Recentemente, com a desculpa de executar um “procedimento de rotina”, auxiliares da segurança do general fizeram uma varredura em busca de grampos nas salas do gabinete da Vice-Presidência, no anexo do Palácio do Planalto, e no Palácio do Jaburu.
A suspeita de espionagem, no entanto, não se confirmou. Mas serve para ilustrar a que ponto chegaram as tensões entre o presidente Jair Bolsonaro e seu vice, ainda que, em público, haja uma tentativa de demonstrar harmonia.
No período eleitoral, Mourão dava sinais em outra direção: admitiu a hipótese de um presidente dar um “autogolpe” com o apoio das Forças Armadas; afirmou que uma nova Constituição poderia ser redigida sem, necessariamente, passar pelo Congresso; criticou o 13º salário; e incorreu no preconceito ao dizer que o povo brasileiro havia herdado a “indolência” dos índios e a “malandragem” dos africanos.
Em mais de uma ocasião, Bolsonaro precisou ir a público amenizar as declarações do companheiro de chapa. Os adversários de Mourão também acusam o vice-presidente de seguir os passos de Michel Temer, que atuou nos bastidores pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.
O sinal mais claro das supostas más intenções do vice, segundo o núcleo ideológico, seria o entusiasmo de Mourão em desautorizar o presidente em todas as suas colocações, no intuito de minar sua autoridade. Após as primeiras rusgas entre Mourão e Bolsonaro, no começo de abril, o deputado federal Marco Feliciano (Podemos-SP) viajou aos Estados Unidos para se reunir com o ideólogo do governo Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho.
Naquele momento, Olavo e o pastor Silas Malafaia, adversário de Feliciano, trocavam ataques nas redes sociais em razão de críticas feitas pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) a imigrantes brasileiros na ilegalidade em solo americano. Feliciano enxergou na disputa virtual uma oportunidade de fazer de Olavo seu aliado.
O deputado percebera que a união de setores evangélicos e olavistas poderia abrir caminho, no governo Bolsonaro, para o avanço do que Feliciano chama de “força conservadora”, uma aliança entre os seguidores do ideólogo e os religiosos alinhados com o pastor em busca de poder na administração federal.
Do encontro de Olavo de Carvalho e Marco Feliciano na Virgínia saiu um manifesto duro e a ideia de tentar votar o impeachment de Mourão. Foto: Reprodução
Nascia ali, naquele encontro na Virgínia, nos EUA, o pedido de impeachment contra Mourão. O deputado voltou ao Brasil disposto a propor a perda do mandato do vice. Foi o que fez. No documento, listou “traições” ao presidente que justificariam seu impedimento.
Mas sua investida foi freada pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que arquivou o pedido. Feliciano, contudo, jamais foi desencorajado pelo presidente em sua cruzada contra Mourão. ÉPOCA/G1
