Tudo começou a partir da apuração sobre o uso de um posto de gasolina de Brasília para lavar dinheiro de doleiros que abasteciam as contas de partidos e políticos. De lá para cá, mais de 500 pessoas já foram acusadas, houve mais de 130 denúncias criminais e cerca de 50 sentenças.
Somadas, as penas alcançam mais de 2.200 anos de prisão. Entre os prisioneiros estão um ex-presidente da República, um ex-governador do Rio de Janeiro e um ex-presidente da Câmara dos Deputados. Somente em Curitiba, a sede da primeira operação, foram 1.200 mandados de busca e apreensão cumpridos em 60 fases, com 155 pedidos de prisão preventiva atendidos pelo Judiciário.
Isso sem contar as operações em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. O dinheiro recuperado quase chega à cifra de R$ 14 bilhões. O sucesso da força-tarefa foi tão grande que catapultou o juiz Sergio Moro ao posto de atual ministro da Justiça.
Na República das Delações na qual o Brasil se transformou nos últimos cinco anos, duas prometeram implodir dois dos principais partidos. Em 2016, as acusações de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, empresa de transporte da Petrobras, prometiam acabar com o MDB. A confissão de Delcídio do Amaral, então senador petista, também em 2016, parecia ser o fim do mundo para o PT. Passados quase três anos, ÉPOCA foi investigar como vivem Machado e Delcídio e os resultados das duas delações mais citadas pelos críticos do instrumento da delação premiada.
Em Fortaleza, a reportagem encontrou um terreno cercado por largos muros de pedras com seis camadas de cabos eletrificados no topo, uma guarita suspensa de onde o vigia pode enxergar toda a redondeza e, ali perto, a imensidão do Oceano Atlântico. Essa poderia ser a descrição de uma cadeia de segurança máxima em alguma ilha deserta.
Mas, dos muros para dentro, uma mansão com quadras poliesportivas, um cata-vento gigante para produção de energia eólica, piscinas e várias construções luxuosas na verdade é a gaiola de ouro onde vem se escondendo, nos últimos dois anos e nove meses, o homem bomba do MDB, Sérgio Machado.
A confissão, em maio de 2016, feita por meio de uma delação premiada, entretanto, não lhe rendeu um só dia de prisão, e, passados quase três anos, a investigação caminha a passos lentos no Judiciário. Machado nem sequer tem o incômodo da tornozeleira eletrônica.
Já o ex-senador Delcídio do Amaral, de Mato Grosso do Sul, tornou-se colaborador da Lava Jato depois de descrever em 21 depoimentos crimes sendo cometidos por figuras como os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Aécio Neves. Após ser cassado pelo plenário do Senado Federal, em placar acachapante — 74 votos a um —, abandonado por seus pares, decidiu colaborar com a Justiça.
