Ilustração da Nasa mostra a sonda New Horizons junto ao planeta anão Ultima Thule, nos confins do Sistema Solar: o mais distante encontro de uma nave humana com um objeto celeste até agora Foto: Nasa/JHUAPL/SwRI
A sonda New Horizons, da Nasa, começa 2019 com um encontro marcado nos confins do Sistema Solar. Na madrugada desta terça-feira, dia de ano novo, a nave – lançada em janeiro de 2006 com destino a Plutão, por onde passou em julho de 2015 – vai cruzar o espaço a cerca de 3,5 mil quilômetros do também planeta anão “Ultima Thule”, no mais distante sobrevoo de um objeto celeste por um equipamento humano até agora.
A manobra vai ser transmitida “ao vivo” pela agência espacial americana em dois momentos chave: de 3h15 às 3h45 deste dia 1º (horário de Brasília), com uma contagem regressiva e animações da efetiva aproximação máxima da New Horizons de Ultima Thule, prevista para as 3h33; e de 12h45 às 13h15, quando a Nasa espera receber o sinal de sucesso da operação e seus primeiros dados, que levam pouco mais de 6 horas para atravessar os aproximadamente 6,63 bilhões de quilômetros de distância que separam a sonda de nosso planeta atualmente, mesmo viajando à velocidade da luz.
Devido à paralisação do governo americano, porém, as transmissões não serão feitas pela página da Nasa na internet e apenas por canais “não oficiais”, como o YouTube do Laboratório de Física Aplicada da Universidade John Hopkins (JHUAPL) , cujos cientistas lideram a missão junto a colegas do Instituto de Pesquisas Southwest (SwRI).
Ultima Thule – oficialmente designado 2014 MU69 – é um dos milhões de pequenos mundos escuros e gelados que integram o chamado Cinturão de Kuiper, além da órbita de Netuno, o que faz com que também sejam conhecidos como objetos transnetunianos.
Assim como os asteroides do cinturão entre Marte e Júpiter, eles são resquícios da formação do Sistema Solar, verdadeiros fósseis deste processo, o que os faz de especial interesse para os cientistas.
Seu apelido foi escolhido em março deste ano com base em consulta pública promovida pela Nasa em lembrança à mítica ilha de Thule, localizada na literatura e cartografia medievais no extremo Norte do planeta e além da qual se estaria em território desconhecido.
Assim, devido à enorme distância, os conhecimentos atuais sobre Ultima Thule são bastante limitados. Observações prévias com o telescópio espacial Hubble e outros instrumentos na Terra e no espaço, bem como com a câmera de navegação da própria New Horizons – em busca de pequenas luas ou detritos que pudessem colocar em risco a sonda durante sua passagem nesta terça-feira -, indicam que ele tem entre 20 e 35 quilômetros de diâmetro num formato bilobado (com dois lóbulos), podendo também ser binário, isto é, formado por dois corpos separados em órbita muito próxima um do outro, e com uma coloração avermelhada mas muito escura, refletindo apenas cerca de 10% da pouca luz do Sol que incide sobre ele.
Para além disso, os cientistas não sabem mais nada, como se Ultima Thule gira e qual seria este seu período rotacional, se é fragmento de um objeto maior destruído por uma colisão nos primórdios da formação dos Sistema Solar ou se é resultado de uma lenta acumulação de material no período desde então, há cerca de 4,6 bilhões de anos.
– Tudo isso está prestes a mudar dramaticamente a partir da véspera e no dia de Ano Novo – destacou em comunicado recente Alan Stern, cientista-chefe da missão junto ao SwRI. – A New Horizons vai mapear Ultima, a composição de sua superfície, determinar se e quantas luas ele tem e descobrir se tem anéis ou mesmo uma atmosfera.
E a sonda vai fazer outros estudos também, como medir a temperatura de Ultima e talvez até sua massa. Num período de apenas 72 horas, o Ultima será transformado de um ponto de luz, um pontinho à distância, em um mundo totalmente explorado. Será de perder o fôlego.
Pelo programa, começando 72 horas antes do encontro, mas principalmente nas 24 horas finais, as câmeras da New Horizons farão imagens em cores, em escala de cinza e infravermelho de Ultima Thule com resoluções máximas esperadas de 330 metros, 140 metros e 1,8 quilômetro por pixel respectivamente.
Há também a possibilidade de a câmera de navegação de alta resolução, batizada Lorri (sigla em inglês para “imageador de reconhecimento de longo alcance”), obter imagens mais detalhadas, de 33 metros por pixel, se a sonda conseguir apontá-la diretamente ao planeta anão – há uma certa dose de incerteza se ele estará na posição esperada para o sobrevoo.
Simulação da qualidade das imagens que serão capatadas pela câmera de escala de cinza da New Horizons, a segunda de mais alta resolução a bordo da sonda, à medida que ela se aproximar de Ultima Thule e os dados forem transmitidos para a Terra Foto: Nasa/JHUAPL/SwRI
Enquanto isso, instrumentos a bordo da New Horizons coletarão dados sobre o objeto, buscando informações como a temperatura nos seus lados de “dia” e “noite”, refletividade ao radar, absorção de radiação ultravioleta do Sol por uma eventual atmosfera ou erupção de gases como a vista em cometas, o que pode dar mais detalhes sobre sua composição, entre outras características.
Só cerca de quatro horas depois do sobrevoo é que a sonda vai se voltar brevemente para a Terra para dar o sinal de que a missão foi bem-sucedida, e mais algumas horas depois iniciar a transmissão das imagens e dados coletados, num processo que deverá durar ao todo pouco menos de dois anos para os aproximadamente 7 gigabytes que espera-se tenha acumulado com as observações, a uma taxa de transferência média de meros 800 bits por segundo (bps) devido à grande distância – para se ter uma ideia, uma conexão de banda larga à internet de 10 Mbps significa que a transmissão de dados se dá a uma taxa nominal de 10 milhões de bits por segundo.
Assim, ainda no dia 1º a Nasa só deverá divulgar imagens recebidas previamente da aproximação da New Horizons de Ultima Thule, com o planeta anão ainda aparecendo como um longínquo e difuso ponto distante.
Já as primeiras fotos de mais perto de Ultima Thule só deverão vir a público nesta quarta-feira ou mesmo apenas na quinta-feira, a depender também dos impedimentos no uso de canais oficiais com o paralisação do governo americano e com a baixa refletividade do objeto e a pouca luz do Sol disponível representando desafios adicionais em sua qualidade. O Globo
