Após três décadas de expectativas, o Hospital das Clínicas (HC) de Bauru, no predião da USP, abriu as portas, na ontem, quarta-feira (1). A unidade, inclusive, já recebeu seus primeiros pacientes, todos com Covid-19.
Aberta pelo governo do Estado, inicialmente como hospital de campanha e com 40 leitos de enfermaria para tratar o novo coronavírus, o HC foi ativado no mesmo dia em que o Hospital Estadual (HE) voltou a superar taxa de 100% de ocupação dos leitos da Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Horas antes da coletiva de imprensa que detalhou a abertura, inclusive, o HE já realizava um rearranjo em razão da saturação de leitos de UTI para a Covid-19, que atingiu 105% (dois a mais que o limite oficial).
A transferência das cinco primeiras pessoas para o HC nesta quarta, contudo, foi suficiente para que o HE readaptasse três quartos na ala da doença, no segundo andar, e ampliasse as vagas de UTI de 39 para 44. Com isso, as enfermarias para Covid-19 por lá foram reduzidas de 74 para 63.
A PRIMEIRA
A primeira paciente transferida para o HC é uma mulher de 51 anos e chegou às 17h30 na unidade. “O HC veio em uma excelente hora. Chegamos a um momento em que nossa enfermaria e UTI estão com capacidade saturada. Agora, poderemos trabalhar um pouco menos apertados”, avalia Deborah Maciel Cavalcanti Rosa, diretora do HE.
“Temos feito grandes ajustes aqui no HE também para que os pacientes sem a Covid não sejam prejudicados”, completa a diretora.
Os cinco leitos de UTI no HE foram ampliados com parte dos respiradores enviados pelo governo do Estado no início deste mês. Resta, agora, a instalação de mais 12 equipamentos, o que também depende da transferência de mais pacientes ao HC. “Vamos ampliar de acordo com a necessidade observada no dia a dia”, detalha Deborah.
‘TEMPORÁRIO’
A abertura do HC acontece com atraso de 36 dias frente ao primeiro anúncio do Estado. O presidente da Famesp, Antonio Rugolo Júnior, confirmou que o contrato é temporário. “Serão cinco meses prorrogáveis pelo mesmo período”, frisa Rugolo, que deve negociar com o Estado ainda um aditivo referente ao ressarcimento pelo atraso na abertura, já que a fundação contratou pessoal e pagou por serviços entre maio e junho.
Diretora regional de Saúde, Doroti Vieira frisou que a discussão sobre a continuidade do hospital “é algo a ser definido após a superação da epidemia”. Aos olhos do Ministério Público (MP), a abertura ocorre com atraso de, pelo menos cinco anos, já que há uma ação contra o Estado desde 2013, que cobra a regularização da oferta de leitos na cidade.
“Do que depender do MP, o HC não será um hospital de campanha. Será um hospital que atenderá mais de 150 leitos e vai ter UTI. É possível, pois temos uma ação transitada em julgado que pode bloquear valores a qualquer momento para serem utilizados no hospital”, ressalta o promotor de Saúde Pública, Enilson Komono.
O presidente da Câmara José Roberto Segalla também criticou a demora e o contrato temporário. “Não aceitaremos hiato nesse percurso. O hospital deve crescer e se consolidar”, frisa.
Carlos Ferreira dos Santos, superintendente do Centrinho da USP, considerou a abertura uma “conquista história”. Contudo, o dirigente também pontuou que este início de atividades do Hospital das Clínicas é um primeiro passo, mas é um marco importante para o desenvolvimento desse complexo hospitalar.
“Agora, é preciso avançar com a assinatura do Acordo de Cooperação Técnica [instrumento jurídico pelo qual a Secretaria de Estado de Saúde assume, de fato, a posse e custeio do complexo do HC de Bauru], para o período pós-pandemia”, assinala Santos.
ABERTURA DE UTI
Ao considerar a data como histórica para Bauru, o prefeito Clodoaldo Gazzetta voltou a cogitar abertura de UTIs no HC com recurso municipal. “Sei que a negociação foi tensa para que a abertura se materializasse. Foi uma união de forças e vamos trabalhar, agora, para implantar leitos de UTI lá, um pouco mais para frente”, projeta.
O HC não é uma unidade de portas abertas, uma vez que o acesso ocorre exclusivamente por meio de transferência hospitalar por ambulância. Apenas pacientes da Covid-19 que já realizaram exames complementares e estão em observação, portanto, com chance mínima de instabilização devem ser transferidos para lá.
O local, contudo, possui dois leitos emergenciais com respiradores. E, em caso de piora no quadro do paciente, nova transferência deve ser regulada pela Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross).
Também presente na coletiva, o secretário municipal de Saúde, Sérgio Henrique Antonio, disse que o Samu deve ajudar nos deslocamentos. O HC fica no predião da USP. Dos 40 leitos, 16 estão no 4.º andar e 24 no 5.º andar. 120 funcionários atuam no local. JCNET
