A primeira onda de infecções pelo novo coronavírus ainda não terminou nos Estados Unidos, mas especialistas advertem que uma segunda onda atingirá o país se o retorno à normalidade for muito rápido ou se acontecer a partir de maio, como espera o governo de Donald Trump.
O debate se assemelha ao que aconteceu na Europa, onde o governo espanhol autorizou hoje a retomada parcial do trabalho, enquanto o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou a prorrogação da quarentena obrigatória para depois de quarta-feira.
A grande diferença é que o sistema federal americano é altamente descentralizado e concede plenos poderes aos governadores de seus 50 estados, mesmo se o presidente decidir coordenar uma estratégia nacional. Até agora, Trump só emitiu recomendações de distanciamento social e teletrabalho até o fim de abril.
Trump disse que tinha “autoridade total” para retomar a atividade nos estados, mas antecipou que “uma decisão da minha parte, em conjunto com os governadores e o conselho dos demais será tomada logo!”.
Dois grupos de governadores do leste dos Estados Unidos (incluindo Nova York) e do oeste (incluindo a Califórnia) não esperaram: anunciaram nesta segunda-feira que vão se coordenar para suspender as restrições. Mas não há indícios de que dezenas de outros governadores farão o mesmo.
O objetivo da primeira fase era evitar que muitas pessoas adoecessem ao mesmo tempo e os hospitais ficassem congestionados. Mas o vírus continuará circulando. No verão boreal, a proporção de americanos infectados pode ser de 2% a 5%, disse no domingo à CBS Scott Gottlieb, ex-diretor da Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e assessor informal de Donald Trump.
“Acordem, até 50% deste país será infectado!”, alertou hoje na rede de TV MSNBC Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisas de Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota. Autoridades planejam retomar lentamente a normalidade, enquanto monitoram um possível reinício da epidemia. Os projetos acadêmicos e de especialistas sobre como chegar a este estágio são abundantes, mas a Casa Branca ainda não formulou nenhum.
O pesquisador assinalou na TV que o número de mortes poderia ter sido menor se o país tivesse reagido rapidamente. Trump, na defensiva, compartilhou ontem uma mensagem com a hashtag #FireFauci. A Casa Branca, no entanto, classificou hoje de “ridículos” os rumores sobre o afastamento de Fauci. “O Dr. Fauci foi e continua sendo um assessor de confiança do presidente Trump”, afirmou o porta-voz Hogan Gidley.
‘No fim do começo’
Todas as indicações de especialistas apontam que deve ser feito um número maior de testes e deve haver mais formas de rastrear os casos positivos e seus contatos, bem como os hospitais devem contar com um número maior de leitos.
Os cientistas da Universidade Johns Hopkins estimam que o país vai precisar de 100 mil “rastreadores de casos”, pagos ou voluntários.
Mas nada está no lugar.
“Se abrirmos o país em 1º de maio, não há dúvida de que haverá um aumento” dos casos da doença, alertou na CBS Christopher Murray, diretor do Instituto de Avaliação e Medição de Saúde da Universidade Estadual de Washington. Talvez alguns estados possam começar em meados de maio. Outros, não, assinalou.
Gottlieb imagina que governadores e prefeitos vão poder autorizar as empresas a retomarem as atividades com metade de seus funcionários ou que continuem confinando maiores de 65 anos. Andrew Cuomo disse que Nova York ampliaria gradualmente a lista de trabalhos essenciais quando o momento chegar.
Aconteça o que acontecer, não haverá uma manhã em que os jornais vão anunciar: ‘Aleluia! Acabou’, disse, ao pedir a seus eleitores que aceitem a ideia de que o vírus vai conviver com a população durante muito tempo, ainda que controlado, até que uma vacina esteja disponível.
