O Amapá entrou na última quarta-feira no grupo das seis unidades da federação com mais casos do novo coronavírus por habitante. Com uma carência história de leitos hospitalares, o estado, o segundo com menor orçamento do país, enfrenta risco de colapso de seu sistema de saúde em algumas semanas.
O Amapá viu o número de pessoas infectadas quase triplicar ao longo da semana. Na segunda, eram 39 casos confirmados da Covid-19. Na última atualização do Ministério da Saúde, divulgada no último sábado, já somavam 193. Três pessoas morreram, de acordo com a pasta. Há também 737 casos suspeitos, segundo o governo estadual.
— É um número muito preocupante. Tem um estado de emergência colocado, assim como em todo o país — admite Dorinaldo Malafaia, coordenador do centro de operações emergenciais em saúde pública do estado. A capital Macapá concentra a maior parte dos casos, com 146 ocorrências. Santana, a segunda maior cidade do estado, tem 19 e Oiapoque, na divisa com a Guiana Francesa, departamento ultramarino da França, um.
Ao apresentar o relatório epidemiológico sobre o coronavírus na quarta-feira, o Ministério da Saúde listou os estados com mais casos por 100 mil habitantes.
Seis deles (Amazonas, São Paulo, Ceará , Distrito Federal, Amapá e rio) foram colocados no grupo vermelho por terem uma quantidade de infectados 50% acima da média nacional, que é de 7,5. O Amapá, que na ocasião tinha uma taxa de 12,4, era o quinto no ranking, à frente do Rio de Janeiro, com 11,2.
SUS tem pouco mais de 30 leitos em UTI
Com baixo orçamento e infraestrutura precária, o estado da região Norte deve sofrer mais do que os demais caso a curva de crescimento da doença mantenha o ritmo visto nos últimos dias. De acordo com o médico Alessandro Nunes, professor da Universidade Federal do Amapá (Unifap), o estado tem problemas históricos de leitos.
Pelo SUS, há pouco mais de 30 lugares em UTI para atender 90% dos 830 mil amapaenses que não possuem plano de saúde.
— Trabalho aqui no estado há cinco anos e nunca vi um leito de UTI público vazio. Abre uma vaga e já tem uma pessoas na fila — afirma Nunes. A expectativa do professor é que em duas semanas não existam mais postos para atendimentos de pacientes que necessitarem de cuidados intensivos.
— Pelas contas que fizemos na universidade com base nos dados dos outros países, o número de pacientes graves vai passar de 240 e não há estrutura para esse atendimento — avalia. Malafaia admite a possibilidade de colapso, mas acha que o quadro pode ser revertido se houver uma radicalização do isolamento social.
— O coronavírus arrebenta com a capacidade do estado de responder à demanda por equipamentos de saúde em qualquer lugar. Até em Nova York. Imagine no Amapá que está na periferia da periferia do capital — afirma o coordenador do centro de operações emergenciais.
Fiscalização intensificada
O representante do governo diz que o estado vai intensificar a fiscalização com barreiras sanitárias e polícia na rua para inibir a circulação. Na última quinta-feira, segundo Malafaia, a população circulava livremente pela capital Macapá, como se não houvesse restrição:
— A dubiedade do comando central incentiva as pessoas a saírem. A partir das falas do chefe da nação muitos pessoas se sentem encorajadas a irem pra rua. A gente sentiu isso aqui no norte do país.
Dentro de um dos hospitais públicos da cidade, foram inaugurados 13 leitos para atender exclusivamente pacientes de coronavírus. O governo trabalha ainda para instalar outros 13 leitos nos próximos dias. Na quinta-feira, quatro dos 13 leitos já disponíveis estavam ocupados.
A demanda pela rede pública deve crescer porque o coronavírus, de acordo com os médicos, inicialmente a população de classe média do estado. Agora, a doença começa a atingir as áreas mais pobres. Apesar de reconhecer a preocupação com os números de casos, Malafaia ressalta, porém, que a explosão de infectados detectados na última semana é consequência da quantidade de exames que estavam represados.
Havia uma orientação inicial do Ministério da Saúde para que as amostras de pacientes fossem enviadas para Belém. A norma já foi revista e agora a maior parte dos testes é feita no próprio estado. O Globo
