Presidente Jair Bolsonaro Foto: Adriano Machado / Reuters
O presidente Jair Bolsonaro usou trecho de pronunciamento do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, para sustentar que, agora, até a entidade internacional defende o retorno ao trabalho.
Ele aventou a possibilidade de convocar novamente cadeia nacional de rede e TV hoje à noite para comentar a fala do diretor-geral da entidade. Na véspera, Tedros citou a preocupação com pessoas isoladas em lugares mais pobres do mundo que têm que trabalhar diariamente para ganhar o “pão de cada dia”.
Mais cedo, Bolsonaro havia publicado um vídeo com a parte da fala de Tedros, legendas, em suas mídias sociais. A OMS, no entanto, continua pregando o isolamento e o distanciamento social como principais medidas contra a Covid-19.
A fala de Tedros Adhanon mencionada por Bolsonaro foi extraída de uma entrevista coletiva concedida por ele e por técnicos da OMS na segunda-feira. A declaração do diretor-geral da OMS foi em uma resposta a uma pergunta sobre os impactos das medidas impostas pelo governo da Índia, que impôs restrições de movimentação e fechamento de comércio no país.
Antes de Tedros falar, o diretor-executivo da OMS, Michael Ryan, defendeu medidas como o isolamento social como forma de enfrentar a Covid-19. – Essas medidas (lock downs) são difíceis. Elas não são fáceis e estão machucando as pessoas. Mas a alternativa é muito pior – afirmou Ryan.
– Mas infelizmente, em algumas situações, agora, essas são as únicas medidas que os governos podem de fato tomar para diminuir o avanço do vírus e isso é uma pena, mas é a realidade e nós precisamos continuar a explicar as razões dessas medidas para as nossas comunidades – disse Ryan.
– Nós entendemos que muitos países estão implementando medidas que restringem a movimentação das pessoas. Ao implementar essas medidas, é vital respeitar a dignidade e o bem estar de todos. Governantes têm que assegurar o bem estar da população que perdeu sua renda e tem grande necessidade por comida, saneamento e outros serviços essenciais.
Nesta manhã, Bolsonaro perguntou se os jornalistas viram o que o diretor da OMS reforçou que há dois problemas indissociáveis: o vírus e o desemprego. – Quando eu comecei a falar isso, entraram até com processo no Tribunal Penal Internacional contra mim, me chamando de genocida.
Eu sou um genocida por defender o direito de você levar um prato de comida para tua casa – comentou, apesar de não haver um processo formalizado até o momento. Segundo Bolsonaro, Tedros estava aparentemente “um pouco constrangido, mas falou a verdade”.
– Eu achei excepcional a palavra dele, e meus parabéns: OMS se associa a Jair Bolsonaro – declarou, arrancando aplausos da claque que estava amontoada na sua frente.
Caminhoneiros
O presidente foi saudado com a menção ao dia 31 de março, quando o golpe militar de 1964, exaltado por ele, completa 56 anos. – Porra, é o dia da liberdade hoje – respondeu Bolsonaro, disse ao deixar o Palácio da Alvorada.
Quando uma liderança da greve dos caminhoneiros de 2018 lhe parabenizou, o presidente pediu que ele se falasse voltado para os repórteres que estavam no local. Júnior, como se apresentou, disse que a categoria protestou contra o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), desafeto do presidente.
– Sintam-se abraçados por nós, leve o desejo da categoria de manter o Brasil seguindo, porque nós temos no senhor um espelho de vida, um ídolo, e pode ter certeza que a classe dos caminhoneiros está sob seu comando – declarou o caminhoneiro.
Um homem que se identificou como professor de matemática e tem um recém-criado canal de YouTube disse então que “só fica sabendo dessas coisas no Twitter”. O presidente voltou a reclamar da notícia de que ele foi “passear” em Ceilândia e Taguatinga, no Distrito Federal, no domingo e disse que foi “ver o povo”.
— Se o vírus mata, em alguns casos, a fome também mata — disse. O mesmo youtuber em seguida interpelou Bolsonaro dizendo que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), “ameaçou a população de prisão se saísse para a rua”.
— Poxa, virou ditadura — rebateu o presidente, rindo — Por que o governador botou grade em volta da casa dele? Não entendi. Não sei por que. Será que é pra cercar o vírus? — questionou.
Bolsonaro foi instado na sequência a comentar o posicionamento do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que na véspera reforçou a orientação pelo isolamento contra o novo coronavírus e disse ao GLOBO que não recomenda a ida do presidente às ruas, como ocorreu no domingo.
— Olha, eu não sei o que ele falou. Eu parto do princípio que eu tenho que ver, não acreditar no que está escrito — declarou, sendo informado de que a recomendação pelo isolamento foi feita em entrevista coletiva, na segunda-feira.
— Deixa eu falar aqui. Não se esqueça que eu sou o presidente. Vamos seguir a orientação da OMS. A OMS falou o quê? O que é que o diretor-presidente falou? Que esse povo humilde fica o dia todo na rua para levar um prato de comida à noite em casa. E ele falou que era africano, sabe o que é passar dificuldade.
A fome mata mais do que o vírus — declarou. Quando os repórteres insistiram nas perguntas ao presidente, Bolsonaro apontou para um apoiador e ordenou que ele continuasse falando.
— É ele que vai falar, não é você não — afirmou Bolsonaro, exaltado, provocando aplausos. Neste momento, em meio a gritos dos apoiadores que estavam ao lado dos jornalistas separados apenas por uma grade, alguns repórteres deram as costas e o presidente perguntou se a imprensa ia “embora e abandonar o povo”.
— Ó, a imprensa que não gosta do povo — insistiu Bolsonaro.
