Culto ecumênico nesta segunda-feira (13) ocupou a área da solenidade de reinauguração. Religiosos pediram em oração que o tempo melhorasse Foto: Elcio Braga / Agência O Globo
A solenidade de reinauguração da nova Estação Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, na Antártica, foi adiada para a próxima quarta-feira devido ao mau tempo na base chilena Eduardo Frei.
Não há condições para o pouso devido à baixa visibilidade. Na última segunda-feira, um avião chegou a arremeter ao tentar pousar na pista de Eduardo Frei. Caso não haja melhora nas condições do tempo, a cerimônia será mais uma vez adiada. O vice-presidente permanece em Punta Arenas, aguardando a melhora do clima.
O mau tempo prejudica a visibilidade há três dias na área da base chilena, na Antártica. Quando conseguir desembarcar, o vice e a comitiva deverão seguir no navio polar Almirante Maximiano, em três horas de navegação, até a Baía do Almirantado, na Ilha Rei George, onde fica a Estação Comandante Ferraz.
Mau tempo
As condições de voo na Antártica são extremamente delicadas. O pouso na pista gelada de Eduardo Frei exige muita perícia e treinamento dos pilotos da FAB. Em muitas ocasiões, após decolar de Punta Arenas, as aeronaves chegam a sobrevoar a região por até duas horas aguardando a melhor ocasião para aterrissar.
No caso do voo da comitiva, a decolagem nem chegou a ocorrer. A viagem dura três horas, se o tempo estiver bom. De navio, a travessia não é menos complicada e bem mais demorada. O Proantar utiliza os navios polares Almirante Maximiano e Ary Rongel na travessia. O tempo de viagem varia entre quatro e cinco dias.
O maior risco é a travessia do Estreito de Drake, considerado o mais perigoso do mundo, na união dos oceanos Atlântico e Pacífico, separando a extremidade da América do Sul da Península Antártica. São 840 quilômetros de um mar com ondas que podem passar de dez metros.
Parte dos particpantes da cerimônia de reinauguração da estação, incluindo os jornalistas, chegou com mais de 30 horas de atraso na Baía do Almirantado, na Antártica, no último sábado. O motivo foi justamente o mau tempo no Mar de Drake. Para evitar ondas de cinco a sete metros, o Maximiano precisou ancorar em frente a Puerto Williams, no Chile, a cidade mais ao Sul do planeta.
Cerimônia de olho no clima
A imprevisibilidade do tempo já havia levado os organizadores da cerimônia a adotar uma programação flexível. A área do evento, por exemplo, com estruturas globolares em frente à estação, pôde ser recoberta por lona transparente para proteger os 100 convidados no caso de nevada sem prejudicar o visual exuberante da Baía do Almirantado e dos glaciares ao fundo.
— Estamos preparados para cobrir essa área, caso necessário, com lonas transparentes e dar esse conforto ao público externo. E ter a certeza que essas pessoas vão estar incorporadas a este cenário, que é que é a nossa prioridade — diz Jochimek. A única vantagem da cerimônia na Antártica, ainda segundo o organizador, foi a menor preocupação com a segurança:
— Quando projetamos eventos com a presidência e a vice, nossa preocupação é constante por conta da posição de snipers (atiradores de elite) e onde pode ocorrer algum tipo de abordagem. Aqui é um território onde ficamos mais confortáveis.
Estamos isolados do mundo. A gente brinca e diz que diferente disso só a Lua. Na tarde de segunda-feira, a estrutura foi usada pela primeira vez em um pequeno culto ecumênico. Nas orações, pedidos para o tempo melhorar e permitir uma reinauguração sem surpresas.
A reinauguração da base brasileira na Antártica acontecerá quase oito anos após o incêndio que a destruiu parcialmente com a promessa de impulsionar as pesquisas científicas brasileiras na Antártica. O número de laboratórios saltou de quatro para 17, abrangendo diversas especialidades, como meteorologia, biociências, química e microbiologia. Os investimentos alcançaram US$ 99,6 milhões de dólares (R$ 407 milhões, no câmbio atual).
— A nova estação significa um novo patamar de pesquisas na Antártica. Na península, é a maior estrutura de pesquisa. Tem 14 laboratórios internos e três externos, que permitirão um salto qualitativo enorme na pesquisa brasileira — diz o botânico Paulo Câmara, da Universidade de Brasília, que conduz pesquisas no continente e participará da reinauguração. O vice-presidente Hamilton Mourão havia embarcado para o Chile ontem.
A construção foi marcada por atrasos. A assinatura do contrato de construção com a empresa chinesa Ceiec, vencedora da licitação, só aconteceu em 2015, três anos depois do incêndio. Em 2016, a estrutura e os módulos começaram a ser fabricados na China.
A fase de montagem terminou em 2018. A inauguração chegou a ser anunciada para fevereiro de 2019, mas foi adiada. As obras ocorreram apenas durante o verão antártico, entre outubro e abril. A estação receberá 30 pesquisadores — capacidade máxima do navio Ary Rongel, usado para chegar à península — logo após a inauguração. Ao longo do ano, 120 cientistas passarão pela base. O Globo/G1
