O candidato presidencial argentino Alberto Fernández discursa após resultado das primárias em Buenos Aires Foto: AGUSTIN MARCARIAN / REUTERS 11-8-19
Decidido a aliviar as tensões com o governo do Brasil, país que considera central para a estratégia de desenvolvimento da Argentina, o líder de centro-esquerda da Argentina e vencedor das eleições primárias, Alberto Fernández, colocou um freio no confronto com o presidente Jair Bolsonaro e enviou uma mensagem de estabilidade à toda região.
— Não se preocupem, porque não penso em fechar a economia — afirmou ao jornal “La Nacion”.
A declaração é uma resposta à ameaça feita pelo mandatário brasileiro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, de que o país deixaria o Mercosul caso o próximo governo argentino – um governo de Cristina Kirchner, disseram – decida fechar a economia.
— Para mim, o Mercosul é uma questão central. E o Brasil é nosso principal parceiro e continuará sendo. Se Bolsonaro pensa que eu vou fechar a economia e que, então, o Brasil vai sair do Mercosul, que fique tranquilo, porque não penso em fazer isso. É uma discussão burra — disse o candidato da Frente de Todos.
Na mesma linha, afirmou ainda que não é contra o Mercosul estabelecer acordos comerciais com outros blocos. Mas advertiu que deve fazê-lo protegendo os interesses nacionais.
— Meu problema não é que a economia se abra. Meu problema é que essa abertura prejudique os argentinos. Se for aberta preservando os argentinos, que seja bem-vinda.
A questão trabalhista
Depois da vitória que o deixou às portas da Casa Rosada e que o alçou a virtual presidente eleito, Fernández se mostrou disposto a aceitar a flexibilização dos acordos trabalhistas, caso exista acordo com os sindicatos.
— O que for decidido em convenção é uma decisão da empresa e dos trabalhadores. O que não quero é colocar regras gerais de flexibilização. Nem tudo é igual — afirmou, ao abordar alguns dos temas que conversou na quinta-feira com o dono do Mercado Livre, Marcos Galperin, grande defensor da reforma trabalhista.
Com um olho nas eleições do dia 27 de outubro e com outro na transição de mandato, no dia 10 de dezembro, o candidato da Frente de Todos insistiu que o atual presidente, o liberal Mauricio Macri, deve renegociar com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para conseguir um adiamento dos vencimentos previstos para os próximos anos.
— O governo firmou um acordo impossível de cumprir e não cumpriu nada. Não cumpriu as metas de inflação, de crescimento e das metas fiscais. O que Macri tem que fazer é voltar a se encontrar com o Fundo e explicar por que não cumpriu nada. Porque, se não, é preciso assumir o que vem de todos os seus descumprimentos.
Fernández disse que espera que a próxima missão do FMI peça sua opinião sobre as condições do próximo desembolso, de US$ 5,4 bilhões, e reiterou que é “impossível” que sejam cumpridas as datas de pagamento.
— A única solução que aparece é adiar as datas — pontuou, antecipando a posição que terá nessa negociação, que lembra o papel que teve quando foi chefe de gabinete do ex-presidente Néstor Kirchner entre 2003 e 2007 .
Em outro ponto de encontro com aquela gestão, o ex-chefe de Gabinete antecipou que, chegando à presidência, aplicará uma política de “flutuação administrada” do dólar, e repetiu que o nível atual da moeda americana, que na sexta-feira fechou em torno de 58 pesos, é adequado. Mas tomou distância da desvalorização de segunda-feira.
— Quando disse que a 60 pesos o dólar estava bem, ele estava caminhando a 67 ou 68. Disse que um dólar por 60 estava recebendo a queda que a divisa havia tido diante da inflação. Nesses termos, o dólar por 60 pesos soa razoável. Um dólar por 60 pesos é um dólar que torna competitiva a produção e que torna as exportações possíveis.
Um posto chave
Quem poderia ser o homem que, desde o Ministério da Economia, se encarregaria de levar adiante essas políticas? O candidato guarda o nome. Não quer submeter esse eventual funcionário a um desgaste de quatro meses. É descabido pensar que pode oferecer o cargo ao ex-ministro da Economia Roberto Lavagna [no governo Néstor Kirchner (2003-2007)]?
— Não é descabido, sempre lamentei que tenha saído do governo de Kirchner. Mas o que não sei é o que o Lavagna quer fazer — afirmou ao jornal “La Nacion”. Na entrevista, Fernández reiterou sua preocupação com os efeitos que podem ter as medidas do presidente sobre a inflação e nas contas fiscais das províncias.
— Essas medidas, ainda que estejam de acordo com o objetivo, devem ser debatidas com as províncias, porque a desordem que gera para elas é enorme. Faço esse pedido porque fazem isso sem discutir com as Províncias.
Também não se comprometeu a manter o congelamento do preço dos combustíveis sem um acordo com os setores afetados.
— As medidas que o Macri anunciou não podem ser tomadas assim, sem falar com ninguém.
Explicou que, caso ganhe as eleições de outubro, tentará aplicar a devolução do imposto de valor agregado sobre os alimentos da cesta básica a titulares da Asignación Universal por Hijo (programa de transferência de renda, semelhante ao Bolsa Família), pensões por incapacidade e aposentadorias mínimas, mas só depois de fazer um acordo com os governadores.
— Não é um problema que se possa resolver sozinho. Tem muito de coparticipação aí. É um assunto delicado, porque há Províncias com uma situação fiscal muito debilitada. Por exemplo, Catamarca deixa de cobrar 1100 milhões de pesos por essa medida. Isso é um mês de salários em Catamarca — afirma. O Globo/G1
